Réquiem... (para você dormir sorrindo)

sábado, 22 de outubro de 2011
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dia nublado, cinza, e você partiu.
lamentar não basta,
Tua vida e graça
também não bastam
pra conter a dor e tristeza que sinto agora
Como dizer: sinto muito...
se o sentir é pouco para a vida que deixaste?

Peço que anjos te dêem asas
e que o vento corte o Tempo que te levou
Para que ele se arrependa
e diga: 'sim, me enganei, não era tua hora, nem tua vez'

Ele insiste: 'não!
é agora!
e você que chore, não me importo!
hoje é a minha hora...'

Será que tu choraste?
percebeste?
sentes saudades?

Tens vontade de pedir um sorvete?
de furar a fila do cinema?
De ouvir uma canção
que cante a alegria, o amor,
e fale como é bom sentir saudade?

é, lamentar não basta.
relembrar é preciso,
a voz, o riso, o anseio por viver.

fique bem...
que algum anjo bom te cubra
e te aqueça, pra que possas dormir sorrindo...

Adeus!

***

* poema dedicado à Carol e aos amigos e familiares que ficaram

Luz forte

sábado, 16 de outubro de 2010
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Luz forte...
Não posso ver nada.
Siga caminhando, não olhe, vá em frente.
Não quero ir. Está bom aqui.
Então fique.
Me dá medo.
Fico com você e com o medo. Que tal?
(pensa, pensa, pensa, para, deixa)
(chora)
(e fica....)
Luz forte... tão forte... quase escura... cega...

Triste é viver na solidão

quarta-feira, 29 de setembro de 2010
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- Corta o caminho de mim pra mim e faz atalho... (pede, suplica)
- Não é de se fazer isso assim, ouça o que digo...
- Peço pouco, é algo simples... (insiste)
- É o que pensa! Não sabe a complicação que dá!
- Não importa, é o que quero!
- Triste é viver na solidão de si! A pressa não compensa, o atalho nunca é o caminho... Como quiser...

Sara Mago

sexta-feira, 18 de junho de 2010
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mago, sara-nos da ignorância e da arrogância esnobe que vestimos a cada dia, Mago, sara a cegueira, ambição de ser mais ou de ser menos, de ter mais, de mais querer. mago, sara a utopia e apresenta-nos a descoberta e a ilusão de todo o dia. sara, Mago a dor da hipocrisia, da falta de amor, da solidão e da nostalgia, da carência de solidariedade, de que padecemos e já nem sentimos mais. Mago, sara a saudade, tristeza para podermos apenas viver, como tu, despidos de falsa moral, vestidos dos nossos princípios, perdidos, achados e reencontrados quando o sol nos mostra que não há futuro e que o amanhã só é um dia em que "posso ser melhor que hoje", como tu disseste.
saramago, obrigada. o mundo ficará mais burro de "cabeça, corpo, alma e coração" sem ti.


hoje a noite pesa com pesar.

Dia de cores

domingo, 4 de abril de 2010
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as cores do teu dia me acordam e convidam...
acordei?
a presença é tua, o céu também
e estou dançando ainda
o sonho contigo
e estou sonhando ainda
dia teu comigo




Ilustração : Ernst W. Nay - Scheiben

Encontro-encontro

quinta-feira, 18 de março de 2010
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Quando eu-criança encontrar tu-criança
E tocarmos juntos o desconhecido
E cantarmos baixo, quase no silêncio
E olharmos perto o que está escondido




Quando nós-crianças estivermos longe
E qualquer sussuro puder ser ouvido
A noite e o dia serão testemunhas
De que o brincar de amar é permitido.

Ilustração: Marc Chagall - Aniversário

Natal dos avós

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
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O natal pra mim era muito choro, era ter medo do papai-noel, engatar o meu pai pelo braço e fugir para a edícula atrás de casa - casa da vó mas se a vó era nossa, sua casa e coração também eram. Era a crise da ceia: cada um queria o natal de um jeito, um queria ver tv na sala, outro queria dormir, outros queriam cantar "Noite Feliz", uns chegando tarde, outros cedo demais, uns beliscando a sobremesa antes da janta, outros sem apetite, era aquela confusão que hoje chega a fazer falta.

Quando eu era criança, o gostoso era, antes do natal, perceber que o pinheiro não era de plástico, vinha da grande árvore que tinha na casa dos meus avós, lá do outro lado da ponte, lá do continente, com muito esforço, mas muito carinho. E as bolinhas de vidro? Acho que eram mais antigas do que eu podia imaginar à época. Deviam vir lá de Blumenau e ai da gente se quebrasse uma! Na realidade, não acontecia nada mais do que um sermão afetuoso de minha tia e, em algum momento, sem exageros, fariam reposição, nunca mais seria a mesma bolinha. Eram tão bonitas, daquele cristal fininho. E tinham ainda velinhas, com pregadores já meio enferrujados, mas a gente adorava ajudar a colocar no pinheiro.

O presépio era secular. O menino Jesus já meio machucado, de algumas quedas ao longo dos anos, fazia parte do acervo, junto com os pastores, as ovelhas, o boi, o burro... ah! do burro eu gostava, parecia estar olhando pra gente. Também eram relíquias que vó Inês guardava a sete chaves, num baú embaixo da escada, numa espécie de sótão misterioso, junto a uma coleção de livros do Proust.
Acho que o natal eram os avós, era o renascimento deles após um ano de acolhimento generoso, quieto e incondicional. Era celebrar a vitalidade deles ao final de mais um ano. Era prestigiar o seu talento que fazia conciliar o inconciliável, curava com amor os desaforos e regava com paciência o desespero. Eram as suas terapêuticas milenares para as desavenças familiares.

Não costumo ser saudosista nessa época, acho que nem gosto de lembrar muito, mas este ano é inevitável. Foi um ano difícil. E, talvez justo por isso, pude sentir ao meu redor mais intensamente tanto as presenças - de amizade, amor, afeto carinhoso e apoio dos que me cercam no meu jardim dos anos recentes - quanto celebrar essas ausências presentes, como a das minhas avós, a do meu avô Bernardo que faz tanta parte da minha vida, como se não tivesse se despedido quando eu era muito, muito criança.

O natal deste ano pra mim é uma parada no tempo, apenas uma espécie de pausa, como numa música, que permite respirar, reconhecer o caminho trilhado, tomar rumos, dar as mãos, livrar-se de pertences desnecessários...
Este natal me deu muitos presentes: sorrisos das crianças para quem cantamos e arrecadamos brinquedos e doces, abraços de esperança de meus amigos, sensibilidade e solidariedade sincera e, claro, amor. Esse "amor dos avós", como diz o Zinker (gestalt-terapeuta e artista), que não pede nada e nutre a quem ama celebrando a sua existência.

Ilustração: Van Gogh - The Mulberry tree