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Diálogos

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

a Irritação chega e me coça...

- Sai daqui! - brigo.

Quanto mais chio, mais ela cresce, espalha-se em mim.
Tento esquecê-la.
E nada. Não desaparece.

- Vamos conversar? - proponho.

Ela para! Olhar de criança que acaba de ganhar um pinguinho de atenção, mas ainda desconfia. Desconfia de mim.


- Vem cá, mais perto! Não vou mais expulsar você!


- S...sério?


- Claro! Esqueceu que você é minha? Quase fui injusta!


Ela vem de mansinho sentar ao meu lado. Não está mais colada e espalhada por meu corpo, tornou-se arredondada e quase pequena Está me encarando, ainda com certa timidez.
Passamos a tarde juntas. Falo a ela que gosto de ver o pôr-do-sol, e me pergunta:

- Por que não aproveitamos o de agora?


Sorrio em cumplicidade. Ela me entende.

E, estranhamente, nãoo me coça mais...

- Você fica bonita à luz do sol poente! - diz já mais à vontade e sem me desviar o olhar.


Já não lembro mais seu antigo nome, talvez seja Intimidade, Sensibilidade... quem vai saber?


Ilustração: Kandinsky - Composição VII

o labirinto e a serpente

sábado, 26 de setembro de 2009

hoje fui encontrada por um livro, ou melhor, por acorde¹ de abel guedes.
não dá para definí-lo somente como um livro, embora não deixe de ser em livro a forma como o autor traz tanta vida, com simplicidade no falar, mas muita intensidade e sensibilidade no tocar o leitor (ou co-autor, como abel nos chama nesta obra de arte). acorde é uma conversa de "eus" e "nós", de dores e amores, de gentileza e respeito, de liberdade e sentimento, daquilo que somos e nos reconhecemos no mundo. e olhem que ainda estou no meio da jornada nesta leitura! falta-me (re)começar a parte "Experimente Experimentos".




ler me trouxe muitas ideias e renovações nos sentidos, uma delas é o labirinto e a serpente, ainda em construção:

(du)elo: o labirinto e a serpente

você é muito inteligente, diz a serpente
pena mesmo é que você não é nada sem que haja gente,
você não sente,
não é como eu, você não pulsa,
não é como eu, que uso todo o meu corpo e posso
encantar, envolver, transpirar, serpentear
e trazer em mim todo o feitiço, toda a magia,
para realmente fazer com que se percam em mim...

você é muito inteligente, serpente,
pena mesmo é que você não é gente,
nem é suficiente,
vira-se, mexe-se, arrasta-se, encanta-se
e não vê que ao tentar encontrar quem se perca em você
perde-se enfim no feitiço de serpentear e não sabe a quem mais
gostaria de encantar...

será? (desconfia em pensamento a serpente)

e este duelo, pra quê?
labirinto, eu nem deveria ouvir você.

serpente, deixo que em mim se percam
deixo que em mim se encontrem
e no meio desse caminho
quem sabe eu possa ouvir sussuros, risos,
povoar meu lar de surpresa e encanto,
sou tão só se não me buscam que me perco
chego a achar que entrei no labirinto de mim
e quando me visitam, minha solidão se reparte
quase creio que não sou só...

labirinto, também me sinto só...

(e a serpente serpenteia e vai-se, labirinteando pelos corredores dele).

Notas:
1: a referência desta obra é:
guedes, abel. acorde são paulo: perspectiva, 2009.
Ilustração: Cláudia Sperb - jardim das serpentes - xilogravura, disponível em: Gravura Brasileira